Essa é pra tocar no rádio

TV ônibus São Paulo

Bléum… Plóim… Uóum… Bléum… E esse som, naipe programa de TV dos anos 80 com guru astrólogo, rolando forte. Sei lá quantos decibéis, ou deciBléums, mas era assim que se ouvia dentro do ônibus. Nas telas, o horóscopo genérico para signos quaisquer — talvez até o de alguém que acredite. Mas a trilha era de uma altura tal que mesmo quem-estava-de-fone-com-The Killers-num-volume-pra-cantarolar-(baixo, baixo)-junto, como apurou o imenso esforço de reportagem por trás deste post, era incomodado. E plóim…

As TVs nos ônibus paulistanos já foram tema de posts aqui (há mais de 1 ano) e em outros fóruns por aí. Novidade além de passada, qual sua avaliação sobre a telinha no busão, hein?

Nesse período, temos convivido com a programação de três redes sobre nossas cabeças: TVO, BusTV e TVOut. Há algumas diferenças — a TVO, por exemplo, não tem som; a barulhenta BusTV traz videoclipes e apresentadores próprios; a TVOut reproduz trechos da BandNews. O conteúdo, porém, é bem semelhante, com serviços, entretenimento, notícias, informes da administração e propaganda (em verdade, a razão de ser de todo o resto. Você ainda lembra que as telas para passageiros surgiram no meio do bolo dos vetos do Cidade Limpa, né?).

Grosso modo, a descrição da grade lembra a das TVs abertas. Com um público heterogêneo, como o das grandes redes, as emissoras de busão optaram por atirar para tudo que é lado — mas com muito mais repetição. Muito mais. Repetição. Repetição. Muito mais repetição. Repetição. Afinal, as viagens não duram mais de… bem… uma hora, certo? Pois é.

Dia desses, quem levou cerca de 50 minutos para atravessar a Av. Paulista viu pelo menos duas vezes um pacote que incluía: as virtudes vitamínicas da escarola; campanha do agasalho; clipe da Celine Dion (como grita!); mulher de bobes na cabeça lendo fofoca de revista de celebridade; seqüência de vídeos sem crédito tirados da internet.

Mudo ou não, o cardápio que quem usa o transporte coletivo é quase obrigado a seguir ainda inclui esquetes bobos de fantoches, ‘pegadinhas’ gringas constrangedoras, noticiário velho (às 14h de uma terça-feira, o boletim era da segunda, 19h). E repete, repete, repete… Se não na mesma viagem, na próxima — já que produzir conteúdo é caro e dá trabalho; e, no ônibus, ninguém pode trocar de canal.

Sem poder, o passageiro que se dane. Goste ou não goste, vai conviver com a janela eletrônica e ainda tem de ouvir que se trata de uma melhoria primeiro-mundista que promove informação, bem-estar… E cada um com seus proBléumas.

*A foto mostra lei em desuso. O autor do post é de Leão. E o título é do ministro.



3 Responses to “Essa é pra tocar no rádio”

  1. Aparentemente, vocês mudaram radicalmente de opinião quanto à TV com relação ao primeiro post, há mais de 1 ano. Que bom.

    O pior não é a repetição de conteúdo, nem sua qualidade. É a completa ausência da opção de escolha.

    Uma propaganda impressa dentro do ônibus você olha se quiser. Se não quiser, pode ler suas revistas, seus livros.

    Quando instalam uma TV com som, você impõe um mesmo canal num mesmo volume para todos os passageiros, queiram ou não. Esqueça estudar enquanto perde tempo no trânsito. Essa iniciativa é anti-educação.

    E não adianta tentar anular o volume da TV com seu MP3 player: os barulhos se somam, para prejuízo da nossa audição (eu diria que os ruídos naturais da cidade e do trânsito já são ofensivos o suficiente aos nossos ouvidos, não precisamos competir com a TV + os fones de ouvido).

    Iniciativa reprovada. Desde o princípio. Por princípio.

  2. Boas onomatopéias…

  3. Muito legal ver artigos originais por aqui, para além das reproduções de notícias.

    Especialmente um artigo crítico com argumentação bem clara sobre uma questão que diz respeito a milhões de pessoas e é, com raras exceções, ignorada pela grande mídia.

    Lembro que a publicidade exagerada no transporte coletivo após a lei Cidade Limpa não trouxe qualquer benefício aos usuários.

    Afinal, somos obrigados a tolerar a poluição visual e sonora nos coletivos enquanto nas ruas é proibido por quê?

    Por que os usuários de coletivos não tem direito a uma cidade limpa?

    Claro, não somos obrigados a tolerar propagandas bestas e fofocas enquanto vamos de um local ao outro num carro coletivo e público. Questionarmos esta imposição é o primeiro passo.

    Parabéns.

    http://panoptico.wordpress.com/2008/03/20/tv-out-propagandas-em-onibus-avancam/

    http://panoptico.wordpress.com/2007/10/22/tvo-continua-a-invasao-privada-aos-onibus-de-sp/