Luiz Horta, o não filho de Nina

LuizHortaTopo1.jpg

Luiz Horta é jornalista acidental de vinhos, mora em São Paulo com sua gata Frederica, é blogueiro do Portal iG, colaborador da revista Gula e do caderno Paladar do Estado de S.Paulo, além de tentar escrever livros quando dá tempo. Adora explicar coisas, detesta cartilagem de frango e ama viajar, embora nunca queira ir, nem voltar. O ponteiro de sua bússola aponta sempre para Barcelona.

Os que já puderam dividir com ele um Jerez Pedro Ximenez em tarde fria paulistana dizem ser experiência única compartilhar seus comentários afiados e pontuais sobre quase tudo. Ainda mais sobre o visual surpreendente de alguns chefs estrelados pelo Michelin. Para puxar papo, comece comentando o seriado Seinfeld. E para quem ainda tem essa dúvida, ele não é parente de Nina Horta!

No mais, saboreie suas respostas para nossas perguntas paulistanas:

Quem é e a que veio Luiz Horta?
Eu sou um especialista em idéias gerais, muito preguiçoso e vim à Terra a passeio. Minha excursão foi legal e já está quase na hora de voltar pra casa, que eu queria que fosse Barcelona, mas acho que é Saturno.

De onde veio a paixão por vinhos e gastronomia?
Fui criado à inglesa numa casa bem portuguesa, gente do norte de Portugal, nunca faltou um papo sobre vinhos e meu avô sempre passou aos netos um copinho de vinho diluído em água. Agora, como algo consciente e de dedicação quase exclusiva, o jornalismo de gastronomia começou quando voltei de três anos em Buenos Aires, em dezembro de 2000 e precisava escrever sobre alguma coisa de que gostasse. Até então tinha sido jornalista cultural, mas cansei do assunto.

Vinho é sua bebida preferida ou, de verdade, prefere refrigerantes?
Minha bebida favorita é água com gás. Depois vem o vinho.

São Paulo tem aroma e retrogosto de que?
De freada de pneu no asfalto, e isso não é uma crítica. É mais uma licença poética.

Qual a melhor bebida para brindar a cidade?
Um Jerez Pedro Ximenez, que é viscoso, denso e escuro, tem alguma coisa a ver com óleo de carro e com a fumaça da cidade, mas é doce por debaixo desse aspecto “poluído”.

Um lugar para piquenique? Um lugar para um jantar de gala?
Piquenique? Adoraria dizer que é o parque, mas infelizmente não temos um verdadeiro hábito de freqüentá-los. Acho que é mesmo o meu mini jardim de um metro por um metro. Jantar de gala para mim sempre é na Figueira Rubayat. Que, aliás, é um parque! Pode unir as duas coisas lá, piquenique e jantar de gala!

Onde beber bem com 5, 50 e 500 reais?
Com 5 reais só na Espanha. Com 50 reais em casa, com duas boas garrafas de ótimos vinhos argentinos, chilenos ou uruguaios. Com 500 reais, se você tem tempo, no ambiente mais confortável da urbe, o lobby do Hotel Fasano, afundando numa daquelas poltronas de couro, sorvendo devagar o líquido e pensando sobre a graça da espécie humana.

E onde comer bem com 5, 50 e 500 reais?
Com 5 reais, no Zillana, a mercearia judaica aqui do bairro (esquina da Rua Sergipe com Rua Itambé, em Higienópolis), uns vareniques. Com 50 reais no ótimo almoço do ICI Bistrot (principalmente quando tem costela a provençal) e com 500 reais, no D.O.M do Alex Atala, nham, salivei!

Qual lugar na cidade abre o apetite? E qual tira totalmente a fome?
O que abre o apetite é o Ceagesp cedinho, ver produtos frescos recém descarregados e em exposição é uma das coisas mais apetitosas, uma promessa de belas refeições. O que tira a fome é o descaso dos cidadãos com essa palavra, sua condição, de donos da cidade. O privado é lindo em São Paulo, mas os espaços públicos são acabrunhantes. Queria que os habitantes gostassem mais de usar a cidade em conjunto e não dentro de suas casas.

Vinhos combinam com comida ou comidas combinam com vinho?
Hehe, pergunta maldosa… Eu sou do tipo dois, a humanidade se divide nisso daí da pergunta; eu acho que comida é que vem depois, primeiro se escolhe o vinho…

caballero%20con%20la%20mano.JPGBeber sozinho, a dois ou em muitos?
Para tomar notas, sozinho, mesmo porque o ideal é deixar a garrafa evoluir devagar, por vezes até dois dias. Mas minha assistente, que é a Frederica, minha gata, sempre torna a tarefa menos solitária, mesmo porque ela cheira todos os vinhos antes. No mais, como quase tudo na vida, a dois é o ideal. Mas até cinco vai bem. Se são mais de dois tem que ser ímpar, para não haver consensos, quando todo mundo concorda em vinhos alguma coisa está errada.

Onde comprar vinhos de primeira?
Sao Paulo, Chicago, Barcelona, cidades com oferta de cair o queixo. Eu não escondo que combino muito com as escolhas e com o entusiasmo da importadora Mistral, que foi minha pós-graduação. E eles têm minha atual paixão e mania, vinhos austríacos.

E de segunda?
Infelizmente ainda há grande produção de vinhos de uvas não viníferas, os terríveis garrafões. Mas estamos melhorando, breve espero não haja mais este lugar e nem estes vinhos, quando também os vinhos terão baixado de preço…Xi, acho que estou sonhando demais…

O que na cidade está verde, o que está maduro e o que já apodreceu?
Verde: a noção de que a cidade nos pertence. Maduro: o público bem informado sobre comida e bebida, bastante exigente e conhecedor. Apodreceu: o transporte público, a falta de áreas verdes comuns, a impossibilidade de ser um flâneur, caminhar pelas ruas da cidade despreocupadamente. Baudelaire aqui teria sido atropelado por um motoboy…

Qual restaurante conhecer antes de morrer?
Tem uma lista enorme, o Pierre Gagnaire, o Drolma do Fermi Puig em Barcelona, o Olivier Roellinger na Bretanha. Mas estes são meros objetos de desejos gulosos. O restaurante para ir sempre até morrer é o do único cidadão que eu ouso chamar de gênio, o Mugaritz, de Andoni Luis, em San Sebastian, no País Basco.

Um lugar que só você conhece na cidade.
Puxa, será que tem algum? Posso dizer alguns lugares que só eu valorizo, mas seria meio pedante, não é? Não consigo pensar em nada que pelo menos alguém não tenha ido antes.

Quer fazer um brinde em homenagem a qual paulistano?
À minha querida mentora e madrinha gastronômica, pessoa que sintetiza bem a finura no ato de viver e de escrever, Nina Horta (que não é minha parente, esclareço mais uma vez). Ela é o que São Paulo deveria ser, elegante, mas discreta, com muito senso de humor, o que os franceses chamam savoir-vivre.



One Response to “Luiz Horta, o não filho de Nina”

  1. e eu que não sei quase nada de vinho???? devo morrer? ou saturno me aceitaria?