Sangue

Sangue.jpg

Aí o que acontece é que você ouve pela enésima vez que os hospitais precisam de sangue. Sempre tem um motivo. É o fim do ano, é o começo do ano, é o feriado, é o frio, é o calor, são as férias. O antepenúltimo apelo que eu li foi no dia 10 de julho, num post aqui no Sampaist.

A decisão já havia sido adiada várias vezes. Várias. Primeiro rola a consciência de que tem muita gente que precisa (acho que isso aconteceu comigo há uns 7 anos, pelo menos). Daí a gente se toca de que não custa (há seis anos, talvez? Seis anos e meio?). Depois, a sensibilização pelas campanhas constantes e a certeza insistente de que você já está ligado de tudo, mas ainda não fez nada. Porque esquece de ver o endereço do posto de coleta; porque não pode perder aquele churrasco; porque está com uma pressa… Porque é fim de ano, começo de ano, feriado. Tem o frio, o calor, as férias. Bom, como disse, teve aquele post. Mais duas mensagens depois, estava finalmente pronto para doar.

Fui ao Hospital das Clínicas num domingo, sem marcar hora (durante a semana, dá pra marcar). Perguntei na portaria, ganhei uma etiqueta branca pra colar na camiseta e as indicações para o andar. Balcão sem fila — nome, endereço, idade, e-mail… Ali, já, a marca de todo o restante do atendimento: gente sorridente, atenciosa. Sentimento bom.

Então você pega um cartãozinho e uma senha. Espera sentado, vendo TV, até que chamam seu número (demorou 5 minutos) e chega a pior parte do processo: uma picada de agulha na ponta do dedo indicador (daquelas para ver o seu tipo sangüíneo). Não dói nada e é a parte que dói mais. Em meio a sorrisos e gentilezas, medem sua pressão, seu peso.

O próximo passo é uma entrevista com um profissional de saúde. Nas paredes do hospital há vários avisos pedindo sinceridade na resposta às perguntas — o sangue é testado antes de ir para a doação, mas, na conversa, impedimentos e situações ou comportamentos de risco já podem ser mapeados. Já teve hepatite? Esteve em Estado com alto índice de malária? Fez tatuagem recentemente? Tem parceira fixa? Fez sexo sem camisinha?

Tudo conversado, você vai para a sala onde estão as cadeiras (reclináveis, estofadas, confortáveis) para doação, mas antes de escolher a sua é preciso passar em uma “urna eletrônica”. Num computador em espaço privado, responde-se a pergunta: “você apresenta comportamento de risco para Aids?”. Qualquer que seja a resposta, a máquina grita um sonoro OBRIGADO PELA SUA DOAÇÃO. O sangue é coletado e os testes são realizados qualquer que seja a escolha — mas, se ali você disse “sim”, independentemente do resultado dos exames, o sangue será descartado.

No HC, a sala de coleta tem a esperada cara de hospital. É ampla e há cerca de 20 cadeiras dispostas em filas entremeadas de corredores onde ficam as enfermeiras e as maquininhas individuais que movimentam as bolsas de sangue durante o processo. Acomodei-me. Após o pedido, descruzei as pernas. “Não tem ninguém que tenha mais medo desta picada do que daquela na ponta do dedo. E aquela é muito pior, mesmo”, brinca Márcia, pra depois dizer que já atendeu um outro Athos (“Que nome bonito! Sua mãe tem bom gosto”) ali.

Então, quando começa, já está quase acabando. Dura cerca de 5 minutos. Tempo pra prestar atenção no som ambiente (Alfa FM. Tocou Phil Collins) enquanto você abre e fecha a mão, como orientado. A todo instante alguém vem perguntar se está tudo bem. Aí terminou, a enfermeira veio tirar a agulha e… Pessoas, leiam bem as (simples) orientações para antes de doar.

“Evitar gordura 4h antes” não quer dizer que seu café da manhã tenha de ser apenas um pão com geléia. Aliás, nem pode. Numa dessas leituras dinâmicas, comi de menos e rolou um breve desmaio. Nada demais (tá bom, vai. Foi a primeira vez que desmaiei na vida e a experiência tem lá suas peculiaridades — isso não é uma recomendação), mas ninguém quer passar por isso, certo?! Fui prontamente atendido. Acordei, segundos depois, com três enfermeiras me reanimando. Perguntaram se eu estava me sentindo bem (sim!); perguntaram se aquilo já havia acontecido (não!); perguntaram o que eu havia tomado pela manhã (bem…). Bronca de leve para o moleque — obrigado a tomar o suco de copinho plástico ali, mesmo, na cadeira, e devagar. “Alguém vem te buscar? Você está de moto? Tem certeza de que não quer ligar para alguém vir te buscar?”. Preocupações simpáticas. Já estava tudo bem. Levantei-me e fui para o lanche pós-doação (misto frio e novo suco de copinho — com sabores pra escolher). Claro que a Márcia ainda apareceu na sala do lanche para ver se estava tudo ok de verdade, né.

E foi isso. O processo inteiro, porta de entrada a porta de saída, durou cerca de 50 minutos. Em algumas semanas, receberei em casa (ou verei na internet) meu exame de sangue. Em três meses, volto pra doar de novo — depois de um café decente. Ah, vou tentar lembrar de tirar pra não ficar andando na rua com aquela etiqueta na camiseta, também!

>>>>>>> Endereços, telefones, dúvidas – tudo sobre a doação aqui<<<<<<<

Foto: Flickr Dike Inside



8 Responses to “Sangue”

  1. Com tantas vítimas do descaso, doar já é uma ajuda. Quanto a todo esse blá blá blá sobre mudanças que não vêm, dia 17/08… Greve geral no país por mudanças! Divulguem pela internet, no boca a boca, na rua… Agora é a hora.

    pi
    http://pinalt.blogspot.com

  2. PUTZ

    NAO TEM NEMO QUE FALAR SOBRE DOAR SANGUE

    SERIA BOM UM YIPO DE MOVIMENTO AQUI NO SAMPAIST

    TIPO

    MARCAR UM DAOCAO DOS LEITORES E USAUARIOS DO SITE

    TIPO UM ENCONTRO DE TODO MUNDO
    COM DIA MARCADO OU COISA PARECIDA
    TIPO VAMOS TODOS DOSAR SANGUE

    SEHUE A MINHA DICA

    INDEPENDENTE DE IREM OU NOA SE ACEITAREM OU NAO EU JA FAÇO A MINHA DOACAO REGULAR

    MAS SEUGE AI A DICA

    http://fireandburn.blogspot.com/

    http://www.flickr.com/photos/fireandburn/

  3. Ah que relato fofinho. Adorei! Deu até vontade de doar sangue tbm :D

  4. Pelo jeito a sensação de doar sangue é muito boa né, seria melhor ainda se você tivesse seguido as simples orientações!!
    Mas vejo que foi tratado muito bem e que é tudo muito simples…
    o que demora mesmo é ter consciência e o tempo que a gente tem mas espera passar o feriado, o verão, etc..
    beijão

    jãn jãn

  5. Menino, vou tentar usar esse post pra me libertar da preguiça que me persegue há… Uns sete anos, talvez?

    Adorei o relato, fora a parte do desmaio. Vou caprichar na geléia, principalmente se for de moto (!!).
    Minha maior preguiça é a da espera… Tenho experiências de looongas esperas no HC.

    Mas sabendo que foi assim rapidinho, já me animei.

    Beijo, Vanis

  6. …eu fui doadora durante anos! um dia me proibiram de doar por causa da tatuagem. voltei meses depois e o problema foi o piercing. desisti!!!

  7. Nunca doei sangue, por N motivos…
    Estou convencida da facilidade…e VOU DOAR!!!
    Vou transmitir este site para amigos, com a finalidade de que eles também fiquem convencidos do mesmo!

    Muito Bom!
    Beijos

  8. Caro, doar sangue é muito legal mesmo. Eu já doei várias vezes, até o dia em que resolvi que não valia a pena mentir minha orientação sexual para poder doar.
    Por causa de um padrão adotado nos anos 80, até hoje quem afirma ter tido relações sexuais com pessoas do mesmo sexo não pode doar, mesmo que o parceiro tenha sido seu namorado e que vcs tenham usado camisinha.
    É claro que um gay pode mentir sobre ter usado camisinha ou sobre o parceiros ser o namorado, mas o mesmo pode acontecer com um hétero!
    Como achei que existe um componente de discriminação aí, parei de negar o que sou. E os hospitais perderam um doador assíduo de um tipo raro de sangue.