Entrevista exclusiva com o diretor de “Não por Acaso”

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O Sampaist, em conjunto com outros blogs que participam do projeto Bloggerscut, conseguiu fazer uma entrevista exclusiva com Philippe Barcinski, diretor do filme Não Por Acaso. Já falamos sobre a estréia do filme, que é super recomendado, aqui.

As perguntas foram feitas pelos blogueiros Leandro Meireles Pinto e Mayara Geraldini, do Sampaist, Ian Black, Lia Amâncio e Fernando Gouveia.

- A cidade de São Paulo é onipresente em “Não Por Acaso”. No documentário “Palíndromo”, a Avenida Paulista é o pano de fundo e interage com o artista. Você tem alguma relação especial com São Paulo? Tem algo nela que você não encontra em outras locações?

A atração começa com o desafio. Filmar São Paulo é bem difícil. Acho que é necessário encontrar uma poética. Se você filmar tal e qual ela é, é muito poluída visualmente. Todos os curtas que fiz partem um pouco de um desafio. Todos partem de uma questão visual atrelada a um sentimento, passam por uma pesquisa e desenvolvem-se pela linguagem cinematográfica.

Diferente da maioria dos diretores/roteiristas não começo com a história, mas com algum sentimento e com algum desafio visual.

Lembro que fiquei muito impressionado quando vi “Amores Brutos”, pois vi uma cidade tão viva como o México mas que tinha uma poética nova ali. A solução daquele filme é o bleach bypass, um expediente de laboratório em que as cores ficam saturadas e os pretos densos. Sabia que essa não era a solução para o “Não Por Acaso”.

Talvez a representação que mais me tocou de São Paulo foi o ensaio fotográfico “Anti-fachada”, do Bob Wolfenson, que valorizava os grafismos. O filme foi por essa linha na fotografia da cidade. Encontrei em Pedro Farkas um grande parceiro. Houve toda uma pesquisa de como representar o trânsito, a sensação de fluxo, e a sensação de controle do personagem Ênio através dele. Todos esses elementos do trânsito somam-se às imagens dos prédios na criação da sensação da cidade no filme.

cartaz_naoporacaso.jpgComo foi filmar um longa na já caótica São Paulo? Foi fácil conseguir fechar ruas para servir de locação às filmagens?

Eu tinha uma experiência interessante com o “Palíndromo”. Mas naquela ocasião não havia dinheiro, estrutura, ou grandes compromissos. Filmamos na guerrilha, no susto. Isso é possível fazer com uma equipe pequena, sem atores conhecidos, sem autorização de uso de imagem e sem o compromisso de “dar certo”. Ensaiávamos na locação, afastávamo-nos para a muvuca se desfazer e filmavamos com a câmera escondida.

Já em um longa isso não é possível. Dai é necessária uma logística que me surpreendeu. É a passagem do mundo amador para o mundo profissional. Nesse momento é importante ter uma boa produtora e uma boa equipe por trás. Em relação ao diretor é importante focar, e definir com o máximo de precisão o que você quer e precisa. Nem mais nem menos.

- Vendo o filme, a impressão é que o caos de São Paulo é perfeitamente “domável”. No entanto, uma decisão tomada aqui reverbera do outro lado da cidade. A mesma coisa acontece nas relações pessoais entre os personagens. A intenção de traçar um paralelo entre ruas e vidas que se cruzam foi deliberada?

Sim. Um dos pontos fortes a meu ver do filme é como as metáforas funcionam bem sem que isso pese demais sobre a história. Quem for ver apenas a história no filme, pode curtir e se emocionar. Quem quiser ficar pensando em várias “camadas” de significado também vai encontrar um terreno fértil ali.

E a beleza da metáfora é que cada um vê um pouco diferente. Mas há claramente um paralelo entre o trânsito e o jogo de sinuca e os relacionamentos e “gerenciamentos” das vidas dos personagens.

- A composição do “Ênio” contou com alguma consultoria da CET? As filmagens foram feitas no centro da controle da CET? Existe, na vida real, um profssional como ele, que tem poder de controlar e descontrolar o trânsito?

Houve bastante pesquisa e apoio dos funcionários da CET. O trabalho deles é, de verdade, bem parecido com o que é mostrado no filme. O que se vê no filme é cenário e tudo é um pouco adaptado para o cinema: as imagens, os cenários, as interfaces dos computadores, mas a essência é bem aquela mesma.


- E o universo da sinuca? Como esse universo (fabricantes de mesa, campeonatos) entrou no filme?

O mesmo com a Sinuca. Ela também serve de metáfora. Gosto muito da frase da personagem Teresa: “Para que treinar uma série inteira se você não sabe o que o outro vai jogar?” É um pouco como na vida e nos relacionamentos. Não dá para planejar um relacionamento. Viver se aprende vivendo. Ou citando Drummond, amar se aprende amando.

Houve também bastante pesquisa em marcenarias, marcenarias de sinuca, salões e aulas de sinuca.

- Uma das sinopses encontradas na internet fala de um funcionário de bingo. O que aconteceu com ele – tanto na história quanto com o personagem, que não está na versão final do filme?

O roteiro começou com 5 histórias. E ao longo dos 5 anos em que foi escrito passou por muitas revisões. As histórias eram muito repetitivas sobre o conceito do filme. O que vingou foi a melhor versão com apenas duas histórias.

Por muito tempo perdurou uma terceira história em que o trânsito final não era provocado por Ênio, mas por um funcionário de um bingo que fazia tudo ao acaso. Ele era o contraponto das duas histórias. Porém, quando ele foi eliminado e essa ação passou para o Ênio, o filme ganhou muito com isso.

- O que pesou para a escolha do elenco? O roteiro já foi escrito pensando neste elenco?

Não tinha ninguém em mente quando escrevi. Queria misturar rostos conhecidos, rostos menos conhecidos e alguma apostas. Essa era a “política” do elenco que tinha em mente. Para as apostas (as personagens de Teresa e de Bia), foram feitos muitos testes.

- Quanto das técnicas utilizadas nos seus curtas foram aproveitadas para o filme “Não Por Acaso”?

O filme segue desenvolvendo questões temáticas e estilísticas que eu vim desenvolvendo nos curtas. A meu ver, dá um grande passo adiante entrelaçando dramaturgia com experimentação.

Tecnicamente acho que é um somatório de todas as minhas experiências. Tem os curtas, tem a publicidade, tem os documentários, tem as séries de TV.

Acho que consegui colocar todas as minhas experiências no filme. Acho que é um filme particularmente complexo para filme de estréia. Tive muito medo ao longo do processo. Mas estou muito feliz com o resultado.

- Uma das coisas que eu mais percebo em qualquer segmento que produza informação (cinema, jornalismo, literatura), é a reclamação com relação a patrocínios (principalmente bancados pelo estado). Será que é impossível fazer bom cinema com pouca grana?

É possível sim. Mas não com essa história. Esse filme necessariamente precisaria de um orçamento médio ou alto.

Acho também que é bom que haja filmes sendo feitos na guerrilha, mas acho que isso não deva ser a prática de todo o mercado. O cinema brasileiro ganha com a profissionalização. É bom que as pessoas não trabalhem por diletantismo ou por amizade, mas que elas desenvolvam seus ofícios, recebam seus salários, tenham boas condições de trabalho e continuidade de oferta de filmes. E isso só se dá com a instauração da industria com filmes que não sejam feitos no sufoco.

- Você estava visivelmente emocionado na pré-estréia do filme. É “apenas” a emoção de ter um longa pronto e estreando, ou teve alguma história além do que vimos que você quer dividir com a gente?

São muitos anos de estrada até chegar aqui. Comecei como estagiário aos 14 anos de idade. Hoje tenho 34. Acalento o sonho de fazer longa-metragem há 20 anos. Sinto-me um jovem veterano. Quero seguir fazendo filmes.



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