Fashion Marketing 2007

fashionmkt.jpg Moda não é roupa, não é uma combinação de peças para compor um visual. Mais do que prêt-à-porter, é uma visão de mundo, um documento de época, um retrato das movimentações sociais e, mais que nunca, um grande e rentável negócio.

Acabou tornando-se uma das crescentes vozes de afirmação do Brasil no cenário mundial, com estilistas que procuram cada vez mais encontrar uma linguagem própria, que retrate nosso país e, ao mesmo tempo, seja adequada ao mercado internacional.

Mas qual é, afinal, a identidade da nossa indústria de moda? Provocando, a jornalista, empresária, escritora e consultora Gloria Kalil diz que a “música brasileira conseguiu um status único no mundo: é sofisticada, respeitada e imediatamente reconhecida como sendo brasileira assim que se ouvem os primeiros acordes. Saber se a moda brasileira conseguirá encontrar esse equilíbrio, ou mesmo se será possível repetir a fórmula no nosso design de roupas é, sem dúvida, uma bela discussão.”

Partindo disso, ela propôs para o seminário Fashion Marketing desse ano o polêmico tema: “Os italianos têm design, os franceses têm marca, os norte-americanos têm mercado interno, os chineses têm preço, e nós, temos o que?”.

Na seqüência você confere o saldo dos bate-papos que acontecerem terça e quarta, no World Trade Center SP, sobre o caminho da moda brasileira, da produção até o mercado.


A moda sob a ótica da mídia
As campanhas nesse segmento precisam ser muito bem decididas e definidas. É preciso saber onde você quer estar e qual lugar combina e acolhe o produto que você oferece, e ter a clareza de que o usuário não precisa saber a diferença entre um produto e outro, a mídia é quem vai lhe dizer.

“Pessoas que nunca se interessaram por um determinado produto vêem grandes campanhas e se interessam, não querem ficar de fora. Homens são o sexo mais frágil, são medrosos, inseguros. Se eles não vão aos desfiles, não lêem revistas de moda, como sabem que devem usar uma cueca CK? Pelos anúncios! Ao chegar em Xangai, a primeira coisa que você vê é Calvin Klein. ”, diz Collin McDowell, crítico de moda do Sunday Times Style.

Clássico X novo
É difícil alguém de 70 anos entender o que se passa na cabeça das pessoas mais novas. Isso fica evidente na música, que é o grande divisor de águas dessa geração. Os mais novos não entendem a música que a geração mais velha gosta e vice-versa. Isso fica refletido na moda: os designers clássicos nem sempre conseguem acompanhar o ritmo dos jovens.

“Há que se usar o que se tem, as suas qualidades e particularidade. “They´re doing motion, but with no emotion”. É preciso usar o coração também”, afirma McDowell.

Todas essas necessidades de mudança e adaptação acabam sintetizadas em uma palavra, a que mais amedronta os designers: próximo. Não importa o que você fez, quão fantástico foi seu último desfile, mas sim o que você fará na próxima coleção.

Pensando assim, o futuro pode estar nas mãos dos jovens, da entrada deles na produção da moda. Mas, antes, é preciso que sejam treinados para o mercado. Eles devem ser protegidos, para não serem explorados ou corrompidos.

Em contrapartida, os estudantes já querem sair das faculdades de moda desenhando e fazendo sucesso, mas, para ser um estilista completo, antes é preciso saber como funciona toda a produção, preços, estruturar uma roupa.

Identidade, marca e exclusividade
O que as pessoas mais querem é moda com integridade, com a identidade do autor, como a escrita à mão. E o que fazer para marcar identidade?

Nesse ponto, em um primeiro momento, entram os italianos, com uma grande sacada: jogar a etiqueta para o lado de fora. Assim você fica sabendo não só de quem é, mas também o preço daquela peça.

Mas os nomes dos estilistas, escritos nas etiquetas, eram difíceis de pronunciar. Surgem então as grandes campanhas difundindo logotipos e marcas, como AX, os dois Cs cruzados de Chanel, o jacaré, o cavalo. São símbolos fáceis, internacionais.

E para baratear os custos, a produção foi para países de terceiro mundo, onde tudo é mais barato. Mas mantém-se a etiqueta “made in um país de primeira”.

Para McDowell, “o que as pessoas querem, cada vez mais, é exclusividade, algo diferente, pessoal, único. Por isso é importante a moda brasileira não querer ser a nova Gucci. As pessoas no Brasil devem ter orgulho de usar produtos nacionais, é preciso haver um orgulho de cada país com a sua produção.”

Para se construir uma marca no Brasil temos que apostar em nosso diferencial, no que temos de único: nosso lifestyle. Achar nosso DNA (talvez a diversidade) e apurá-lo, o que aqui pode e deve ser perpetuado como nossa identidade e pensar em longo prazo, não com hábitos de balcão.

Ivestimentos e oportunidades
Há muito dinheiro sendo movimentado no mundo da moda, mas o Brasil não acompanha esse ritmo. Investidores gostam de estabilidade, e ainda não somos um país estável. Temos que conquistar a confiança do mercado, a começar por construir bases sólidas e acreditarmos em nós mesmos.

Saber diferenciar entre investidores de curto e longo prazo e ter um bom produto, que ao cabo de tudo é o que mais importa. Quando há um bom produto, é fácil atrair investidores.

Mas grandes investidores cobram resultados, e moda trabalha com criatividade, paixão, por isso nem sempre os dois casam, sintonizam. É preciso afinar muito bem essas duas partes.

De acordo com Xavier Mayer, vice-presidente do Morgan Stanley, “o tamanho do negócio não importa, mas sim o seu potencial. As coisas estão muito altas, muito rápidas, com grandes apostas, e as pessoas do mundo dos negócios não sabem quando isso vai acabar. Mas é fato que, quando tudo desabar, vai doer. Então aproveitem o momento.”

Mercado externo
Há uma vontade grande dos produtores brasileiros em fazer sucesso e explorar o mercado internacional, mas poucos conseguiram isso até agora.

Antes de um passo tão grande, a marca precisa de posicionar e saber qual o seu diferencial, que lacuna, que vertente exploraria no mercado internacional, muito mais rápido e predatório que o brasileiro.

“Falta organização e entendimento de até onde se quer chegar. Não é obrigação de ninguém exportar e ser grande lá fora. Se você quer exportar, tem que estar preparado para competir com o mundo, estruturado para isso, porque a chance, provavelmente, será única”, afirma o estilista Alexandre Herchcovitch.

Os novos consumidores
No momento, o cenário da moda é de desorientação, falta de bússola, excesso de escolhas versus a volta aos valores de um mundo que oferecia mais segurança e tranqüilidade.

Os consumidores estão voltando a procurar o “feito para você”, customizado. Com clientes mais informados, que ditam as regras, o varejo tem que equiparar-se a esse conhecimento, instruir e formar o consumidor. Antes o varejo oferecia algo, hoje o cliente procura.

A visão humanista e igualitária está em alta, junto com a preocupação com o clima, a natureza.

Para dar suporto a isso, as lojas estão se tornando um “momento de descoberta”. A mudança mais importante do varejo é essa redefinição do ponto de venda. Onde se comprava, hoje também se toma café, dança, encontra diversos tipos de atividades. São os novos templos do consumo. Ambientes atraentes e memoráveis, onde o consumidor gaste tempo prazerosamente, com vitrines que viraram verdadeiras instalações.

Com tanta pressão, só vai sobreviver quem tiver um bom posicionamento. Para Ucho Carvalho, designer e consultor na área de imagem estratégica, comunicação e estilo da África Propaganda, é preciso criar um “quê”, dizer ao que vim. Depois, criar um “quem”, uma personalidade distinta, com conexões com a emoção, que evoquem sentimentos inerentes às pessoas. Por fim, o “como”, que é uma comunicação consciente e consistente para afirmar os dois pontos anteriores. Tudo isso associado a um forte toque humano, autenticidade, verdade e sinceridade”.

A cara e o respeito
Para a moda brasileira evoluir, tem que saber interpretar mentalidades e cores locais. Responder com atitudes as várias nuances e segmentações dos consumidores. Pode até ter uma matriz importada, mas ela precisa ser “editada” para nosso mercado. Se for esperta, aproveitar toda a diversidade de nossa terra para ser reconhecida a distância e respeitada.

Participaram das palestras e mesas:
*Gloria Kalil – Organizadora.
*Josué Gomes da Silva – Presidente da ABIT.
*Vittorio Missoni – Diretor Executivo e de Marketing da Missoni.
*Margherita Missoni – Representante do novo perfume Missoni.
*Collin McDowell – Fundador do Fashion Fringe, crítico de moda do Sunday Times Style.
*Giovanni Bianco – Diretor de arte da GB65.
*Xavier Mayer – Vice-presidente do Morgan Stanley.
*Demian Fiocca – Presidente do BNDES.
*Gilberto Gil – Ministro da Cultura.
*Paulo Borges – Criador e Diretor da São Paulo Fashion Week.
*José Miguel Wisnik – Professor de Literatura Brasileira (USP)
*Alexandre Herchcovitch – Estilista.
*Ucho Carvalho – Designer e consultor na área de imagem estratégica, comunicação e estilo da África Propaganda.
*Bárbara Kolsun – Vice-presidente Sênior da 7 For All Mankind.
*Vicente Dinini – Presidente e Diretor da Marisol S/A.
*Daniella Helayel – Proprietária da marca Issa London.

Texto publicado originalmente no site Delas, do Portal iG.



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