“Desenho Anônimo” resgata o legado da imigração

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Uma formidável e singular coleção de peças antigas estará na mostra Desenho Anônimo – Legado da Imigração no Sul do Brasil, no Museu da Casa Brasileira, que coloca em relevo o design executado por artesãos da imigração italiana e alemã, desde 1824 até o início do século 20.

Colecionados e catalogados ao longo de três décadas, cerca de 500 objetos do cotidiano e 75 fotografias formam um extenso painel da saga da colonização nos estados do Sul do Brasil. As peças são originárias do Rio Grande do Sul, em sua maioria, e de Santa Catarina.

Pode-se vislumbrar a inserção dos imigrantes no contexto do universo da casa e do trabalho, da sobrevivência individual, da vivência e da conquista, da abastança e do reconhecimento na comunidade local.

Com curadoria do arquiteto Calito de Azevedo Moura e do artista plástico Alfredo Aquino, os objetos foram criteriosamente selecionados entre 3.500 peças originais, que pertencem à Coleção Azevedo Moura. Estarão em exibição as portas decoradas de casa, utensílios domésticos, mobiliário, ferramentas, potes, vidros, recipientes de armazenagem, utilitários de marcenaria, de cultivo, objetos de uso pessoal, adornos, os singelos quadrinhos de mensagens éticas e religiosas, e brinquedos.

A mostra Desenho Anônimo é um testemunho da importância da formação cultural familiar através de objetos domiciliares. As 75 fotografias de época e cartões postais também foram selecionadas do acervo da Coleção Azevedo Moura, que conta com mais de 750 imagens antigas.

“Grande parte das peças foram feitas pelos imigrantes, mostrando o desenvolvimento de um Desenho (design) Anônimo, criativo, espontâneo e baseado no bom senso”, diz Calito de Azevedo Moutra. E Alfredo Aquino acrescenta: “Os objetos desenhados e executados (em madeira, ferro, ligas de metais, cerâmica e porcelana) são os vestígios e os documentos materiais de uma saga onde os protagonistas anônimos modificaram a trajetória de seus destinos e nos legaram a beleza de suas pequenas peças, singelos potencializadores de esforços coletivos, onde não está ausente a força de suas individualidades criativas”.


Os curadores destacam uma das peças da mostra que traz o desenho, sem assinatura e de encantos singulares, que representa simbolicamente um objeto simples e bem curioso: um espremedor de frutas cítricas. Feito de maneira rústica, em madeira, o propósito de sua utilização não pode ser visualmente mais claro e a engenharia é bastante simplificada – nele existe uma manivela, um eixo, uma ponta esculpida para a extração do suco, uma canaleta, uma base com reforço de travessas.

“No entanto, este objeto é capaz de nos surpreender por sua forma criativa, de captar a nossa admiração e de nos fazer esboçar um sorriso ao observá-lo”, ressaltam Calito de Azevedo Moura e Alfredo Aquino.

A diretora do Museu da Casa Brasileira, Adélia Borges, pretendia fazer esta exposição desde 2003, quando conheceu a Coleção Azevedo Moura, numa visita a Porto Alegre.

“É admirável a obstinação do Calito em ‘descobrir’ objetos e móveis nos mais perdidos rincões do sul do país, que muitas vezes estavam prestes a ser descartados por seus proprietários. A coleção, muito bem mantida e conservada, é um magnífico testemunho de parte da saga dos imigrantes em nosso país. É um privilégio mostrá-la em São Paulo.”

O projeto de montagem é das arquitetas e designers gaúchas Ana Luisa Cuervo Lo Pumo, a Lui, e Maria Cristina C. de Azevedo Moura, a Tina, que já foram vencedoras em várias edições do Prêmio Design Museu da Casa Brasileira. Elas criaram uma cenografia com a divisão das peças em grupos temáticos, como portas, utensílios domésticos, mobiliário, recipientes, ferramentas, brinquedos e adornos, confeccionados em diferentes materiais (madeira, ferro, cerâmica, vidro e metal esmaltado).

O programa musical da exposição contará com temas de época dos imigrantes alemães e italianos, selecionados por Rubem Prates, responsável pela música erudita na Rádio da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Alfredo Aquino
Artista plástico (pintor e desenhista), escritor e curador de exposições. Realizou várias mostras individuais, a maior parte em museus e centros culturais, no Brasil e no exterior. Possui obras em acervos como o do MASP (Museu de Arte de São Paulo) e o
do MARGS (Museu de Arte do Rio Grande do Sul), além de coleções particulares no Brasil e na França.

Editou livros de arte de outros artistas contemporâneos e exerce atividades como curador de exposições de arte contemporânea. Organizou mostras retrospectivas de Siron Franco, Amilcar de Castro, Vasco Prado, Gonzaga , sobre arte de descendentes italianos (Anima Italiana) e mostras de arte brasileira no exterior.

Carlos de Azevedo Moura
Arquiteto, professor universitário de Arquitetura e Urbanisno (Universidade de Brasilia e Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e colecionador de obras de arte. Formador e organizador da Coleção Azevedo Moura – Objetos: fototeca, iconografia e memorabilia da imigração italiana e alemã ao Brasil (séculos 19 e 20), com mais de 3.500 itens tombados em acervo próprio.

Conhecedor da iconografia das imigrações ao Sul do Brasil, é curador da Mostra Desenho Anônimo, em seus diversos segmentos sistematizados – A Casa do Imigrante, Utensílios Domésticos, Instrumentos de Trabalho, Brinquedos e Adornos, As Festas Comunitárias e Documentação Fotográfica de Época.

Na foto, o espremedor de frutas cítricas.

Desenho Anônimo – Legado da Imigração no Sul do Brasil // De 6 de maio a 8 de julho, de terça a domingo, das 10h às 18h // Museu da Casa Brasileira – Av. Faria Lima, 2705 // Tel. (11) 3032-3727



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