Ele não é de Sampa, mas…

marvio.jpg Quem nunca ouviu, ou melhor, assistiu a um show da banda carioca/paulistana Cabaret pode não entender o motivo pelo qual escolhemos Márvio dos Anjos como a próxima vítima do Sampaist. O músico/jornalista/poeta/ator, entre outras coisas, esbanja versatilidade durante suas apresentações e chama a atenção do público, pouco habituado a performances tão provocativas.

E é no palco que Márvio dos Anjos sai de cena e dá espaço para Marvel, um alterego, talvez, disposto a fundir perfeitamente a música às outras artes.

Sem camisa, suado e com os olhos pintados, Marvel invade a platéia e sem culpa ou censura flerta com os espectadores do espetáculo. Alguns deliram, outros questionam; alguns ainda aplaudem boquiabertos, enquanto outros mais fogem do olhar fuzilador do vocalista.

Márvio/Marvel é sobrinho-bisneto de Augusto dos Anjos, nasceu no Rio de Janeiro, mora desde 2003 em São Paulo e confessa que veio para a metrópole pela grana. Os últimos dias de sua vida, é claro, sonha em passar na Cidade Maravilhosa.

Confira esse simpático bate-papo:

1- Você é do Rio de Janeiro, certo? Há quanto tempo mora em São Paulo?

Sim, sou carioca, nascido no Grajaú, criado em Jacarepaguá e emancipado em Copacabana. Moro em São Paulo desde janeiro de 2003, ou seja, há pouco mais de quatro anos.

cabaret.jpg2- Por que escolheu a cidade da garoa?

Pelo básico: grana. Meus últimos sete meses morando no Rio foram de desemprego. Aí apareceu uma oportunidade em São Paulo, e eu achei uma boa. Hoje que conheço melhor a cidade, teria alguns motivos a mais para morar em SP. Mas quando escolhi, foi grana. E um certo desespero.

3- Você é vocalista da banda Cabaret. Quais as diferenças mais gritantes entre a cena musical independente do Rio e de São Paulo?

Vejo duas principalmente: uma é em relação à oferta de espaços em SP, bem maior que no Rio, com esquemas melhores para as bandas e múltiplas opções. A outra é do público. No Rio, o público tem medo de sair de casa, tem menos grana e não gosta de ir muito longe do seu bairro. Só que, uma vez na platéia, o carioca se sente decidido a se divertir. Participa mais do show e está mais conectado com a banda. Em São Paulo o pessoal tem um pouco mais de disposição para ver as bandas, mas, durante o show, todo mundo parece assumir uma postura “analítica” e preferem tirar conclusões sobre a banda em vez de curtir o momento. O pessoal que eu conheço aqui chama isso de “carão”. Eu acho que é um traço de auto-repressão. Sei lá, eu venho de uma cidade em que se tira a camisa na rua num dia de muito calor. Mas seria uma auto-repressão principalmente em relação àquilo que não se conhece. Medo de gostar sozinho de uma banda nova.

4- Qual a característica mais paulistana da banda?

O Cabaret é uma banda sobre cenas urbanas de desamor. Numa cidade fria, com tão pouco espaço para o romantismo e tanta possibilidade de solidão em cada apartamento e em cada discoteca, acho que o Cabaret se encaixa perfeitamente. Sem falar que as roupas que gostamos de usar são mais confortáveis aqui do que no Rio.

Crédito//Foto do Márvio/Marvel: Divulgação
Crédito//Foto da banda: Marcos Hermes/Divulgação


5- Li no blog do João Paulo Cuenca que você é sobrinho-bisneto de Augusto
dos Anjos. Sua música, suas poesias ou seus textos têm alguma influência do poeta?

Meus poemas (não as letras) têm aspectos formais semelhantes. O gosto pelo soneto, a obsessão pelo decassílabo, isso eu extraí de tanto que li dele. Há certa falta de pudor em observar o absurdo da experiência humana, mas obviamente ele tinha uma perspectiva mais trágica. A vida dele foi muito mais trágica, perambulando de favor nas casas de amigos no Rio com mulher e dois filhos.

6- Como é trabalhar em um jornal tipicamente paulistano – a FSP – sendo carioca?

É divertido porque existe todo um estereótipo que favorece e atrapalha. O paulistano vê o carioca como o bom vivant preguiçoso, como a praia que não se esforça para ser metrópole, então posso ser visto como indolente. Ser carioca num jornal como esse acaba conferindo certas permissões de estilo: “ah, ele é carioca, deixa assim”.

7- Qual a palavra melhor decifra São Paulo em sua opinião?

Eu normalmente uso duas: motor e radar. São Paulo é a única metrópole a rigor existente no país. Capta o que existe lá fora e movimenta o país.

8- Qual a melhor banda paulistana de todos os tempos?

Acho que nada será mais paulistano que o Cansei de Ser Sexy. O climade fraude, eletronismo, o cosmopolitismo, o flerte com moda e celebridades, a vontade e o triunfo de não precisar do Brasil. O Cansei de Ser Sexy é o Sex Pistols da Paulicéia, pondo os reis da crítica a nu. Como não curto esse eletro-rock, gosto só de algumas músicas, como “Superafim” e “A La La”, mas acho as meninas ótimas e adoro o Adriano desde a época do Butchers. A banda paulistana que eu mais gostei foi o Ultraje a Rigor, mas eles soavam “cariocas” demais.

9- Qual cidade escolheria para passar os últimos dias da sua vida? São Paulo ou Rio?

Meus últimos dias? No Rio, sem dúvida. Em São Paulo quero passar as últimas noitadas.

10- Você entra em transe durante as apresentações do Cabaret. Enquanto
alguns apreciam tamanha ousadia, outros assistem boquiabertos, assustados, a performance da banda. No que pensa enquanto está no palco? De onde tira TANTA energia?

No palco, eu penso em criar a cena que a música e a letra inspiram. Em ser quem eu deveria ser todos os dias, mas que as pessoas jamais aceitariam ver no mesmo escritório. Não sei se é teatral ou se é liberação, deve ser os dois. A energia eu tiro do prazer de ser visto, de estar no centro, de dar espetáculo em vez de tédio.



4 Responses to “Ele não é de Sampa, mas…”

  1. bacana a entrevista, Rê. e belas fotos as do moço aí, hein? puxa!

  2. Sai que é meu amigo!!! Adoro, que orgulhinho :)

  3. Eu conheço o sobrinho neto do Augustão e nem sabia?
    Mas veja só…

  4. Adoooro. Moço e banda. Parabéns pela entrevista, Renata! Ele só se esqueceu de dizer que é a mistura de “Ney Matogrosso e Robert Plant” que deu certo. hahaha