Ele é de Sampa: Alexandre Inagaki

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Alexandre Inagaki é praticamente uma celebridade entre os blogueiros brasileiros. Seus textos, sempre bem humorados, fizeram do Pensar Enlouquece – Pense Nisso referência entre os que buscam na internet literatura descompromissada, mas honesta.

E fãs de Inagaki é o que não faltam. Basta dar uma rápida navegada pelos comentários de seus posts para perceber o quão suas reflexões mexem com a nova geração web 2.0.

Dia desses, em um vagão do metrô, um garoto trajava uma camiseta do blog. Perguntei, curiosa: “Por acaso você fez camisetas para o Pensar Enlouquece?”. Inagaki, surpreso, respondeu: “Não!”. Então contei o caso a ele. Pena que não estava com a velha e guerreira câmera a tiracolo.

E claro que toda essa fama “virtual” já lhe rendeu muitas entrevistas, matérias, citações e, obviamente, clonagem de seus geniais textos mundo afora. O último post do blog, inclusive, aborda exatamente esse assunto. Vale a pena dar uma passadinha por .

Alexandre Inagaki é um paulistano convicto e, além das respostas às nossas perguntas bandeirantes, ainda mandou de lambuja, como bonus track – foi assim que se referiu ao presente -, um poema onde declara seu carinho pela cidade.

Divirtam-se!!

Você mora na Vila Mariana, popular bairro paulistano. Se não morasse lá, qual outro bairro seria o seu refúgio bandeirante?

Morei quase 20 anos em Perdizes, e continuaria lá numa boa. Perdizes é um bairro de topografia pra lá de acentuada. Repleta de barrancos, escadarias e colinas, obriga carros menos possantes a apelarem para a primeira marcha: trata-se de uma verdadeira montanha-russa de ruas. A região, que concentra grande número de prédios residenciais, começou, de alguns anos para cá, a ganhar contornos comerciais. Marcas como Blockbuster, Sottozero, Bank of Boston e Gelateria Parmalat tornaram-se presentes, causando reviravolta significativa (e simbólica destes tempos de globalização) no perfil de um bairro caracterizado por logradouros com nomes de origem indígena, como Caiubi, Kaiowaa, Apiacás e Caetés, que é a rua onde morei. Bons tempos nos quais freqüentei assiduamente lugares como a padaria La Plaza, o restaurante Juca Alemão e o Fran’s Café da Avenida Sumaré.

São Paulo tem cheiro, gosto e cor de quê?

São Paulo é uma balbúrdia multifacetada. Ao mesmo tempo que exala o cheiro nauseabundo da marginal Pinheiros ou o odor enjoativo dos churrascos gregos do Largo 13 de Maio, também tem o cheiro de mato dos caminhos que levam ao Pico do Jaraguá ou à Serra da Cantareira. Mas esta cidade também tem o gosto da pizza do Castelões no Brás, do Häagen-Dazs de Strawberry Cheesecake na Oscar Freire, da coxinha do Yokoyama na Lins de Vasconcelos, da esfiha de carne do Jáber na Domingos de Moraes, do rodízio de churrasco do Fogo de Chão na Santo Amaro etc etc. Quanto à cor, não tem jeito: Sampa é cinza.

Um lugar para dançar, pensar, jogar conversa fora…

Pra dançar: o Studio SP, na Vila Madalena, e a quadra de ensaios da Vai Vai, no Bexiga. Pra pensar: o Centro Cultural São Paulo, na Vergueiro, a sala de espera do Aeroporto de Congonhas ou qualquer banco na Rodoviária do Tietê. Pra jogar conversa fora: compartilhando uma mesa com amigos no mezanino da Galeria dos Pães, no Empanadas da Vila Madá ou na Prainha da Paulista, aboletado na grama da Praça do Pôr-do-Sol em Pinheiros ou proseando durante uma caminhada no Ibirapuera ou no campus da USP.

Na sua opinião, qual a rua que tem a cara de Sampa?

Se fosse avenida, a resposta seria óbvia: Paulista. Como é rua, minha resposta é: Augusta. Porque ela é uma espécie de microcosmo de toda a bagunça e diversidade paulistana, resumindo a esquizofrenia típica desta cidade. É a rua do Espaço Unibanco, do Cinesesc e da Estação Vitrine; a rua das putas, habitués das saunas e casas de “entretenimento adulto” instaladas pela rua ou extraviadas do Kilt e Vagão; a rua do Pedaço de Pizza, do Frevo e do Charme; a rua do Promocenter e da Loja do Gugu, que dividem com o Stand Center da Paulista os carinhosos apelidos de “Ching Ling” e “Carrefurto”. A rua do Outs, do Sarajevo, do Vegas e do Inferno. A rua, enfim, que virou sucesso de Jovem Guarda graças a Ronnie Cord e que, ao lado da Angélica e da Consolação, foi devidamente homenageada pelo Tom Zé.

Três lugares para se conhecer por aqui antes de morrer…

Se você descer na Estação da Luz, já estará diante de três lugares imperdíveis da cidade: a própria Estação, que é belíssima, o Museu da Língua Portuguesa, o melhor presente que São Paulo ganhou no ano passado, e a Pinacoteca de São Paulo, que além de ser um belo monumento arquitetônico e de ter um ótimo acervo, possui uma agradabilíssima cafeteria no térreo e, de quebra, entrada gratuita aos sábados.

Música e filme que, segundo Inagaki, têm a cara de São Paulo?

Uma música que pra mim tem cara de café da manhã, bocejos e noites de sono interrompidas na marra é o “Tema de São Paulo”, composto por Billy Blanco e melhor conhecida pelo refrão: “Vambora, vambora/ Olha a hora, vambora, vambora”. Música executada anos a fio pela Jovem Pan AM, trilha sonora do rádio-relógio usado pelos meus pais que me acordavam para ir à escola: “São Paulo que amanhece trabalhando/ São Paulo que não sabe adormecer/ Porque durante a noite paulista vai pensando/ Nas coisas que de dia vai fazer”. Quanto a filmes, a cidade de São Paulo já serviu de locação para pelo menos duas obras-primas do cinema nacional: “O Grande Momento” (1958), de Roberto Santos, e “São Paulo S.A.” (1965), de Luís Sérgio Person. Mas um filme menos conhecido e que sou obrigado a citar nesta resposta é “Fogo e Paixão”, longa dirigido em 1988 pela dupla de arquitetos Isay Weinfeld e Márcio Kogan. Primeiro, porque o elenco é repleto de gente muito identificada com a cidade, como Rita Lee, Cristina Mutarelli, Mira Haar, Giulia Gam, Nair Belo e Carlos Moreno. E segundo, porque os cenários utilizados em “Fogo e Paixão” foram escolhidos a dedo dentre os locais arquitetonicamente mais interessantes de São Paulo, como o prédio da Bienal, o Castelinho da Rua Apa e o Edifício Bretagne.


Ônibus, metrô ou carro? Por quê?

Metrô, sem dúvida nenhuma. Porque, além de ainda ser um meio de transporte rápido e eficiente (apesar das obras de ampliação ultimamente pra lá de conturbadas), moro a duas quadras da estação Chácara Klabin e trabalho a duas quadras da estação Brigadeiro.

O que fazer para se distrair no trânsito?

Ter um bom tocador de mp3, a fim de tentar abstrair a mente da máquina de fazer estressados que é o trânsito de Sampa City. Mas não tenho, na verdade, muitos motivos pra me queixar: nem sei onde foi parar minha carteira de motorista, porque não fiz a mínima questão de renová-la. Muito melhor ser passageiro do que motorista.

Do luxo ao lixo – ou vice-versa, como preferir. Um lugar barato bacanérrimo e um lugar caríssimo para curtir a cidade…

Como é quase unanimidade dizer que uma das melhores coisas de São Paulo é a sua variedade gastronômica, cito dois lugares bacanas pra se comer. Para os menos abastados, recomendo o Trailer do Hervi, que costuma ficar estacionado na Rua Mourato Coelho. Um point obrigatório pra todos os notívagos que saem das baladas da Vila Madalena e desejam matar a larica com um lanche honesto e delicioso. Pedida imperdível: o sanduba de frango com pão de ervas. Para quem tem bala na agulha e deseja impressionar a namorada ou a família, recomendo uma ida ao Figueira Rubayat, na Haddock Lobo. De preferência, reservando uma mesa à sombra da majestosa figueira, de 50 metros de altura, que orna os jardins do restaurante. Além do visual belíssimo, tanto de dia quanto à noite, quando a iluminação dá um toque ainda mais especial ao local, a comida é da mais alta qualidade: destaco em especial o couvert e os deliciosos grelhados.

Dia ou noite paulistana? Por quê?

A noite, sem dúvida alguma. Porque é mais ou menos a partir das 21 horas que o trânsito dá uma certa trégua, e andar por São Paulo torna-se, enfim, algo palatável. Além disso, a noite oculta as paredes pichadas, a poluição visual, os postes empesteados de anúncios, e faz com que esta cidade tão embotada, vilipendiada e mal cuidada pareça ser menos feia (embora não exista noite sem luar que seja capaz de esconder as feiúras de locais como o Minhocão ou a estátua do Borba Gato). Por fim, porque é ótimo jantar em lugares como o mexicano El Kabong, o italiano Família Mancini, o coreano Lua Palace ou o brasileiríssimo Sujinho, passar uma noite inteira assistindo a filmes nos noitões promovidos pelo HSBC Belas Artes ou o Espaço Unibanco, fazer compras na calmaria da madrugada no Extra do Itaim ou no Carrefour da Ricardo Jafet, curtir boa música em lugares como a Funhouse, o Café Piu Piu ou o Barnaldo Lucrécia, e constatar que morar em São Paulo é um privilégio que só conseguimos valorizar devidamente quando nos desvencilhamos das algemas do trampo nosso de cada dia.

Cinema de rua ou shopping? Qual a melhor sala da cidade?

Cinemas de rua são cada vez mais escassos nesta cidade. Com poucas e honrosas exceções (como o Cinesesc da Augusta e a Sala Cinemateca na Vila Mariana), quase todas as salas estão dentro de shoppings. Apesar de gostar de assistir a filmes no bar que fica dentro da sala do Cinesesc, creio que o melhor cinema de São Paulo é o complexo UCI do Shopping Jardim Sul, que reúne telas grandes, poltronas confortáveis e som de ótima qualidade.

Sampa

Sampa – duras ruas caóticas e deslineares
Sampa – sintaxe confusa de sonhos e sons
Sampa – olhares montagem controle remoto
Sampa – broto cinza de crescimento desconexo
Em tuas esquinas me perco e me reencontro
Monstro de gentilezas insuspeitadas
Peito forjado em luz e arabescos
Teu luar anêmico fura o céu sem estrelas
E observa impassível os homens cansados
Sampa, teus sinais verdes são escoamentos de gente
Teus ônibus cheios são viagens redentoras
Nas filas de banco pensando em nada
Pensando pensando pensando e nada
Parques de concreto e lutas abstratas
Putas e pivetes famintos na esquina
Praças, latrinas abertas ao público
Sampa – pútrida, mas tão bela cidade
Sampa que amo e suporto
O silêncio incômodo dos elevadores
A música dispersa das paixões sem espelho
Bocas amargas de palavras recolhidas
E a solidão realçada pela multidão
O vento da madrugada na saída do bar
O azul do céu quando nasce a manhã
A beleza inesperada de tua aurora
Como inesperado é o sorriso banhado em sol e esperança
Uma queda e um reerguer-se contínuos
Sampa, meu coração e minhas angústias
E caminham apressados carregando suas dores
Caminham apressados como se fugissem
Como se pudessem fugir

Alexandre Inagaki



15 Responses to “Ele é de Sampa: Alexandre Inagaki”

  1. Putz, muito bom!
    Inagaki, como sempre, manda muito bem!

  2. Sensacional.

  3. Esse cara é meu mestre e ele sabe disso. E ele me diz que é o contrário. Enfim, já pedi a Austrália para quando ele dominar o mundo, algo que acontecerá, no máximo em cinco anos.
    Abraços, amigo-mestre. Você merece.

  4. Sou fã, sou fã!

  5. Tenho o privilégio de ser amiga do Ina (como chamamos carinhosamente o Alexandre) e o prazer de tê-lo acompanhado em muitos dos lugares citados nesta super entrevista.

    Me lembro especialmente de um recente: o Trailler do Hervi, na Mourato, com seu delicioso sanduíche de frango no pão de ervas, que mata nossa fome depois das baladas do Studio SP.

    Com destaque especial para as figuras mitológicas e hilariantes que aparecem por lá, no alto da madruga.

    Lembro que, da última vez que estivemos lá, fiquei horas com o sanduíche atravessado na garganta, pois não sabia se comia ou dava risada. Ótima lembrança…ótimo lugar, ótima entrevista.

  6. O Ina é um cara que sempre vale um Ctrl + D. Dentro e fora da internet. Figuras como ele ajudam a tornar Sampa, essa cidade ugly sexy, num local mais interessante.

  7. O Ina é um cara que sempre vale um Ctrl + D. Dentro e fora da internet. Figuras como ele ajudam a tornar Sampa, essa cidade ugly sexy, num local mais interessante.

  8. Hmmm, vejo que preciso voltar a São Paulo mais vezes. O roteiro me deixou com água na boca

  9. bacana, bacana! parabéns pela entrevista!

  10. olha ele! :)

  11. Só duas correções sobre Perdizes… A Gelateria Parmalat já fechou faz uns bons anos (quando deu aquele rolo com a empresa, que tava indo pro buraco). E a Rua Caiowaa se escreve com C.

    Aliás, o povo por aqui não sabe pronunciar os nomes das ruas: chamam a “caiová” de “caióvas” (sim, com um S que não existe) e a R. Caraíbas de “caráibas” (entre outros erros menos comuns).

  12. Willian, minha resposta fala dos lugares que eu freqüentava quando ainda morava em Perdizes, por isso citei a finada filial da Gelateria Parmalat, assim como poderia ter falado de outros “points” da Sumaré que já fecharam, como o KFC, a Brunella, o Red’s, o campo de futebol que cedeu lugar à Blockbuster (aliás, fiz parte da equipe de funcionários que inaugurou a filial da locadora que, recém-adquirida pela Americanas, sabe-se lá se permanecerá com o mesmo nome), a Hobby Vídeo, etc etc…

  13. cara. e olha so quem eu encontro aqui. sou fã desse maluco.

  14. Inagaki, valeu pela resposta!

  15. Iaí rapa, tb axo a estátua do borba gato muito feia, to armando uma parada pra melhorar, olha o flyer no meu blog! Na moral!!! Huahuahuauauauau