Mães da Sé

maesdase.jpg

Neste sábado o Sampaist traz uma reportagem especial de um grupo de alunos de jornalismo da Universidade Metodista de São Paulo. Paula Meireles Pinto, Hilder Rezende, Laureen Mello e Lilian Sobral, alunos do 1º ano do curso, foram até a Praça da Sé para conhecer o trabalho do grupo “Mães da Sé”.

Uma sala no décimo terceiro andar de um prédio no centro de São Paulo abriga sete mil histórias de quase luto. As paredes são repletas de fotos. Para cada uma delas, uma família em desespero. A sala em questão é a sede da Associação Brasileira de Busca e Defesa a Crianças Desaparecidas (ABCD).

O projeto começou há 10 anos quando a presidente Ivanise Esperidião da Silva, três meses após o desaparecimento da filha, participou da novela “Explode Coração”, em exibição na época. Nas gravações, Ivanise conheceu o projeto “Mães da Cinelândia” (atual ‘Mães do Brasil’). Nele, as mães do Rio de Janeiro se reuniam para lutar contra a dor da perda de um filho.

Ivanise, impressionada com a organização daquelas mães, decidiu iniciar um projeto similar em São Paulo. No dia 31 de março de 1996, ocorreu a primeira manifestação silenciosa nas escadarias da Catedral da Sé. Nascia ali a ABCD, popularmente conhecida como “Mães da Sé”. Todos os domingos, das 10h ao meio-dia, o ato se repete.

Fabiana Esperidião da Silva, filha de Ivanise, desapareceu aos 13 anos no dia 23 de dezembro de 1995. Segundo sua mãe, Fabiana foi cumprimentar uma amiga que fazia aniversário, em companhia de uma colega. O desaparecimento ocorreu no trajeto de volta. Atualmente, Fabiana teria 24 anos.


A associação resolve dois tipos de desaparecimento. O primeiro chama-se fichamento de pesquisa. Este soluciona casos em que algum membro da família perde contato. “As pessoas casam, se mudam. Acabam perdendo contato com os parentes”, disse Ivanise.

Há dois anos, uma pessoa anônima, a qual Ivanise não sabe o nome e conversa apenas por telefone, vem ajudando a solucionar esse tipo de desencontro. Essa pessoa, com os dados dos desaparecidos, já conseguiu elucidar dois grandes casos. Em um deles, o irmão achou a família que não via há 50 anos.

Alvo de grande reportagem exibida na “Rede Record”, outro caso resolvido foi o de uma mãe que após 32 anos de entregar a filha para adoção, a reencontrou. “Sozinhos nós vamos a lugar nenhum. Nós só temos estes resultados porque temos nossos parceiros”, disse Ivanise.

O outro tipo de desaparecimento que a instituição trabalha é aquele em que a família chega portando um boletim de ocorrência (B.O.). Estes desaparecimentos ocorrem das mais diversas formas, como crianças que saem de casa com medo ou vergonha de algo que tenham feito. Adquirem gosto pelas ruas e conhecem o famoso “pai de rua”, aquele que a alicia, mas protege. “Criança que foge não vai muito longe”, contou Ivanise.

Também é comum a fuga de adolescentes que sofrem conflitos com si próprio, comuns na idade. Casos de deficientes mentais, auditivos e visuais que saem sem supervisão também ocorrem em larga escala.

Nestes casos, o desaparecimento tenta ser elucidado através de divulgação (sites, embalagens de produtos, tickets de pedágio, etc.). Ivanise conta que este procedimento traz bons resultados. De sete mil casos registrados na instituição, 1556 já haviam sido solucionados até o ultimo levantamento.

“As nossas mães não podem sair daqui da mesma forma que elas entraram. A instituição é a última porta que elas batem. Ao chegar aqui, já passaram por todo tipo de constrangimento”, disse Ivanise. Ela conta que as mães depositam nela seu último fio de esperança, e ela não pode decepcionar uma mãe como essa.

A instituição conta com uma psicóloga voluntária, Juliana Faria, que presta atendimento na instituição todas as quartas-feiras. A presidente crê que precisaria de mais psicólogos, pois apenas eles têm a maneira adequada de abordar uma mãe e ensiná-la a lidar com a dor.

Além de psicólogos e assistentes sociais, a instituição precisaria de advogados. Ivanise, estudante de direito, pretende atuar em prol da instituição. O desaparecimento acarreta em inúmeros processos jurídicos, como, por exemplo, liberação de declaração de ausente, que é o documento que permite à família movimentar contas e receber direitos trabalhistas em nome dos desaparecidos.

Ivanise conta que apesar de não ser lei, algumas delegacias adotam o procedimento de registro de B.O. apenas 24 ou 48 horas após o desaparecimento. Danilo da Silva Nascimento, 36, investigador do 2º DP de São Bernardo do Campo, confirma que a prática é comum. “Fazemos isso porque somente um entre cem casos se confirma como desaparecimento. Geralmente, o desaparecido retorna para casa antes mesmo das 24 horas”.

Por sua vez, o delegado de polícia José Carlos de Melo, responsável pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), disse que Nascimento está enganado. “Cada caso é um caso. Quem tem que saber se o filho vai ou não reaparecer é a família e não os policiais. Mesmo com 15 minutos de desaparecimento, a delegacia tem que fazer o B.O.”.

A ação do DHPP

Segundo José Carlos de Melo, a família que chega ao DHPP não precisa ter B.O. registrado. Caso isso aconteça, o próprio Departamento providencia o boletim. A partir daí, a foto e os dados do desaparecido entram no sistema e começa a procura.

Este sistema de busca está interligado com todos os estados brasileiros. Cruzam-se os dados fornecidos pela família com os dados de entradas recentes em hospitais, delegacias, Instituto Médico Legal (IML), abrigos, etc. Caso as características coincidam, a família é chamada para fazer o reconhecimento.

Se após 24 horas, este método não surtir efeito, o DHPP entra em contato com a família e se certifica se a pessoa não retornou para casa. A partir daí, as investigações se intensificam, mobilizando policiais de todo o país.

No mês de maio do ano de 2005, foi aprovada pelo presidente Luiz Inácio “Lula” da Silva, a lei de nº 11.259, a qual determina investigação imediata do desaparecimento após notificação à Delegacia de Polícia, Conselho Tutelar, entre outros. Essa lei traz esperança aos pais de crianças desaparecidas, pois eles não precisam mais esperar 24 horas ou até 48 para dar queixa na polícia. Aprovada no dia 30 de dezembro, os órgãos competentes deverão comunicar a ocorrência imediatamente a portos, aeroportos, Polícia Rodoviária e companhias de transporte interestaduais e internacionais.

José Carlos de Melo concorda que a lei pode funcionar, mas somente no papel. “Qualquer pessoa sabe que é praticamente impossível avisar todos os portos, aeroportos, e companhias de transporte cada vez que uma criança desaparecer. Nós recebemos em média 40 casos por dia. É humanamente impossível”.

O DHPP se juntou com a Universidade de São Paulo (USP) e criou o Projeto Caminho de Volta. O projeto tem como objetivo auxiliar na identificação de crianças desaparecidas e também oferecer apoio psicológico às famílias. O “Caminho de Volta” tem quatro diretrizes. A primeira delas é entender e identificar a causa do desaparecimento. Depois, ocorre a criação do Banco de Referência, o qual é coletado o DNA de pais e irmãos do desaparecido para assim comparar com o DNA de crianças que possam ser encontradas.

Outro passo importante é o Suporte Psicossocial, que tem o intuito de ajudar a família no decorrer do processo de busca e também participa na solução final do caso para que a criança seja recuperada e reintegrada em seu ambiente. O último passo visa capacitar profissionais envolvidos no sistema de garantia dos direitos da criança e do adolescente por meio de cursos presenciais e educação à distância, garantindo um acompanhamento contínuo e supervisionado.

Aos domingos, na catedral da Sé

Na manifestação aos domingos das Mães da Sé é onde as mais tristes histórias aparecem. Todo tipo de caso é encontrado, tanto de desaparecimento de crianças como de adultos, e estão nos relatos a seguir.

O pai da Sé

Não são só as mães que sofrem com a perda de seus filhos. A família inteira sente a dor e um exemplo disso é o pai que está sozinho na busca de seu filho. Manoel Eloi da Silva, 64, contou que seu filho José Aparecido da Silva, 19, era depressivo e constantemente achava que seria assassinado. Ele desapareceu no dia 21 de agosto de 1995 no Jardim Campestre em São Bernardo do Campo, SP.

Segundo Manoel, seu filho, que estudava na 8º série do ensino médio, sofria ameaças de colegas, mas nunca havia se envolvido com drogas. Separado da esposa, ele disse que no começo ela o ajudava, mas agora está sozinho nessa luta.

O B.O. foi feito e, com ele em mãos, Manoel procurou em hospitais, IML e delegacias. Foi direcionado ao DHPP, mas segundo ele, nenhuma pista foi encontrada.

Manoel disse que as mães da Sé se ajudam para diminuir a dor. “Vai fazer onze anos que estamos na luta”, afirmou. Na época do desaparecimento, muitas fotos saíram na mídia, mas agora que o caso já existe a um período maior, as fotos não são mais divulgadas. Manoel acha que o governo poderia ajudar mais investindo em divulgação.

Desaparecidos da guerra urbana

João Veldemiro da Silva e Izaura Amaro da Conceição são pais de Anderson da Silva, 20 anos. No dia 14 de maio de 2005, dia das mães, Anderson saiu para visitar a filha, que morava em casa diferente da sua. Ele não retornou.

O sumiço, na zona leste de São Paulo, ocorreu em meio à onda de ataques da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) e das retaliações policiais aos ataques. Anderson, de pele morena clara, não foi encontrado pelo DHPP, onde o casal disse que foi muito bem recebido e instruído. Os pais não acreditam que o desaparecimento tenha a ver com a onda de ataques, já que, segundo eles, seu filho nunca esteve envolvido com o crime.

A mãe, que junto ao pai chorou muito durante a entrevista, contou que dois dias antes do desaparecimento, Anderson e sua filha de dois anos trocaram mais carinho do que o normal. “Ao ver aquela cena, senti que algo aconteceria com meu filho”, disse. Ela disse também que pouco antes do dia das mães, o filho lhe parecia triste.

Izaura conta que só consegue pensar no filho e não consegue dormir direito. “Durante o dia eu saio para caminhar, mas quando chega a noite me dá um desespero. Eu sonho com ele direto. Não sei se ele está passando frio, se ele está com fome. É horrível”, contou a mãe emocionada.

Na ocasião da entrevista, o casal participava pela primeira vez da manifestação.

Adultos também somem

A família Vasconcelos Dornela é mais um exemplo das inúmeras que já passaram pela Praça da Sé. No ano de 2000, Djalma José Dornela, na época com 64 anos, saiu de casa para ir a sua chácara em Parelheiros, zona sul de São Paulo. Na angústia de esperar pelo marido que não voltava para casa, Nercina Vasconcelos Dornela, 70 anos, pediu aos filhos que fossem em busca do pai.

No dia seguinte, a família recebeu um telefonema de um homem que procurava por parentes de Djalma. Sua filha perguntou o que eles queriam, mas eles não responderam. Ligaram mais seis vezes procurando gente da família. “Fala pros familiares que o velho está nas nossas mãos”.

Nercina foi até a delegacia e só conseguiu fazer o B.O. depois de 24 horas. “Fiquei esperando lá mesmo. Eu estava entrando em desespero”. Encaminhada ao DHPP, a esposa disse que foi muito bem recebida e explicou que eles fizeram investigações intensas. “Até dentro d’água eles procuraram”, afirmou.

A família ofereceu recompensa para quem achasse Djalma e espera poder rever o pai ainda vivo. “Temos esperança de encontrá-lo”. Esta é a frase escrita ao lado da foto de Djalma no cartaz levado todo domingo à Praça da Sé.

Nercina reclama da falta da divulgação de casos de idosos desaparecidos. “Acho isso errado porque ele é gente também. Ele tem uma família esperando por ele. Adultos e idosos têm que ter espaço na mídia. Todos esquecem dos velhos”.

Pai de seis filhos, Djalma saiu sem documentos. A polícia diz que ele ainda pode estar vivo.



6 Responses to “Mães da Sé”

  1. Não conhecia este projeto, muito interessante.

    A notícia está bem concisa e o blog está muito informativo.

    Parabéns e sucesso !

  2. Olha que chik rsrs…matéria do pessoal da minha sala sendo publicada rsrs. Realmente essa foi uma boa matéria que rendeu uma nota excelente pra dona Flopita neh, eu lembro da Marly dando destaque hehe. To honrado em Flopi..
    aeeeeeeee conheço a moça que fez a matériaaaaaaaaaa hahahahahha
    bjão parabéns..

  3. OI MUITO BOA MUITO PROFISSIONAL
    PARABENS PRA TODOS E PRA PAULA
    BEIJOS E ABRAÇOS

  4. Entrevistei o casal Valdomiro e Isaura e, na ocasião, eles disseram que apesar do filho nunca ter tido envolvimento com o crime, eles não descartavam a possibilidade de Anderson ter sido vítima de ações da PM. Inclusive eles têm um filho que já foi espancado pela polícia. Foi o que disseram em entrevista no final de agosto deste ano. Abs,
    Denise

  5. Boa tarde!
    Bom eu entrei no site de vcs e fiquei sem saber o endereço de vcs para pode está indo aí comunicar um desaparecimento da minha prima,eu gostaria de está indo aí conversar com vcs ou melhor minha tia que está muito aflita já faz 4 meses e nada sobre ela,então eu gostaria de pedir o endereço de vcs e o telefone,vou ficar agradecida se vcs poder me enviar isso o mais rápido possível uma resposta.Desde já obrigado.

  6. Olá Andréia
    Você pode entrar em contato diretamente com a organização “Mães da Sé” no e-mail faleconosco@maesdase.org.br ou no telefone (xx11) 3337-3331.

    Abraço
    Leandro Meireles Pinto
    http://sampaist.com