Paulista da gema

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Ele não seria o mesmo sem São Paulo e São Paulo não seria a mesma sem ele. Marcelo Rubens Paiva é parte da natureza metropolitana da grande cidade. Seus contos e crônicas trazem à tona o melhor e o pior dessa gigantesca e complexa engrenagem brasileira.

Impossível não encontrar em seus textos uma única menção a cidade. São ruas, bares, cinemas, teatros. Uma infinidade de características permeia as histórias de Paiva. Difícil mesmo é não se identificar com seus personagens urbanos e independentes.

E desta vez ele levou a sério os estereótipos criados – quem sabe adaptados – dos inúmeros protagonistas, antagonistas e coadjuvantes que interagem com a cidade. Em seu mais recente trabalho, “O homem que conhecia as mulheres” (Editora Objetiva), Paiva atua como um olheiro, absorto a realidade, cujo intuito é desmistificar – ou tentar – a raça humana: machos e fêmeas.

O livro é daqueles que a gente devora em uma “sentada”. São contos e crônicas curtas, criativas e cheias de bom-humor. É claro que o lado sarcástico de Paiva não foi deixado de lado. A maneira crua como ele aborda determinados assuntos pode causar desconforto aos mais conservadores.

Passar os olhos pelo texto do autor é como fazer um tour por São Paulo. Vila Madalena, Avenida Paulista, Pinheiros, Centro, o que não faltam são bairros e ruas tipicamente “bandeirantes”.

É muito fácil encontrar em seus personagens amigos, conhecidos, colegas de trabalho, amantes, namorados. As características sociais e comportamentais são tão bem detalhadas e tão comuns que ler seus contos mais parece um passeio pela noite paulistana do que uma atividade literária, se é que me entendem.

Você chega no Bar da Dida, Genésio, Filial, São Cristóvão, Baixo Gávea, Bar Lagoa, e lá está ela, a pinguça, geralmente com amigos, geralmente amiga de todos, bonitinha, descolada, independente, que mora sozinha em Pinheiros e hospeda um amigo hétero e duro do interior – Trecho de “O homem que conhecia as mulheres”

E o amor por Sampa, como se recusa a apelidar a metrópole (segundo Paiva só carioca chama São Paulo de SAMPA), é de longa data. Em seu romance de 1986, “Blecaute”, o autor usa a Avenida Paulista como cenário de sua trama. Em seu último trabalho ele é mais ousado; declara em alto e bom tom o carinho pela cidade. O último capítulo, batizado de I LOVE SP, traz um sentimento de nostalgia e saudade dos tempos em que os vizinhos ainda cumprimentavam-se com “bom-dia”. Mas ele não deixa e ressaltar as infinitas possibilidades que só aqui podemos ter acesso. Afinal comer um PF (prato feito) às 3h da manhã ou ir ao cinema “na faixa”, literalmente, não tem preço.

Eu amo São Paulo. Nasci aqui, quando ela ainda era uma fria cidade organizada – o Centro era no centro, nos bairros as pessoas moravam -, provinciana, de muitas casas com quintais (…) Como escritor eu poderia morar em qualquer canto bucólico do mundo, escrever diante de uma paisagem deslumbrante. Mas e se o computador der pau, quem conserta? E se der fome à noite, quem entrega comida? E se eu quiser pesquisar algo na biblioteca, terá alguma completa por perto? E se eu quiser relaxar e ver um filme de arte, terá algum cinema na região? – Trecho do capítulo “I LOVE SP” do livro “O homem que conhecia as mulheres”

Paiva, o Sampaist concorda em gênero e grau com você. Assinamos embaixo ;-)

Divirta-se

O homem que conhecia as mulheres – Marcelo Rubens Paiva
Editora Objetiva
$$$$$: R$ 26,00

Imagem/crédito: Flickr roney



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