Eu tenho uma camiseta escrita Eu Te Amo

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Imagine a frase acima em uma canção. Mas ela só tem três acordes. E a voz não é aveludada, e sim bem rouca.
O cantor não é sertanejo, nem tem pinta de bom moço. Tentou ser bonito e ter cabelo comprido, mas não deu certo. Se você conseguiu imaginar como isso soaria, você acaba de entender o que é o ‘punk-brega’.

Lembra quando os Ramones cantavam “Can’t get you outta my mind”, ou “I wanna be your boyfriend”? Pois bem. Pense nessas mesmas letras em português. Versos como “Não consigo tirar você da cabeça” ou “Quero ser seu namorado”, podem facilmente entrar no repertório de qualquer cantor romântico brasileiro. Seja ele o Daniel recém-acidentado , ou o Armandinho (um Felipe Dylon para maiores). Dá até para ver o olhar meigo e a cabecinha estrategicamente jogada de lado, ao pronunciarem essas palavras.

Mas em show do gaúcho Wander Wildner, o rei do punk-brega por excelência, essa pose não existe. E apesar das letras românticas e sofredoras, é tudo muito ‘roque en rou’. Em versão acústica ou com banda, ele insiste no peso até mesmo ao falar do cachorrinho que foi roubado. Gritando, não cantando.

E na verdade, Wander tem sorte por ter cunhado na prática o termo “punk-brega” já há algum tempo. Hoje, já que qualquer demonstração de peso com sensibilidade é “Emo”, se ele tivesse a cabelão que sempre quis, seria a mais perfeita tradução do estilo mais conhecido como ‘tenho franja, sofro por amor e preciso cantar isso pra vocês’. A música “Não consigo ser alegre o tempo inteiro”, provavelmente, viraria hino na Galeria do Rock. E se “Emo” é sofredor, Wander é um emo-sado-masô. Ele sofre com o maior prazer, e suas desventuras amorosas são acompanhadas em coro por grupos tão diferentes como ex-punks vindos lá da sua antiga banda Replicantes, por universitários do Mackenzie, e até por amantes de MPB….

Ele conseguiu, em um dos seus últimos shows por exemplo, fazer com que a espremida platéia perdesse a voz berrando “eu dormi na praça, pensando nelaaaaaaa”. É essa música mesmo que você pensou, mas em uma versão mais….’atitude’? O mesmo acontece com as versões de “I believe in miracles” do Ramones e “Candy” de Iggy Pop.

Hoje, nesse mesmo palquinho onde escolheu fazer intermináveis temporadas em SP, Wander estréia o novo show Sub Versões.

Com um clima faculdade, freqüência idem, decoração paz-e-amor-psicodélica, o espaço engana. Na parte debaixo, fica o lado punk da força. Escuro, apertado, cheiro de mofo quase. Mas é ali que ele se sente em casa. E é ali no escurinho, que todo mundo berra Bruno & Marrone fazendo chifrinho de metal, sem o menor medo de ser triste.

Ouça “Eu tenho uma camiseta escrita Eu Te Amo” e “Não consigo ser alegre o tempo inteiro” aqui.

Foto do site oficial.

Wander Wildner hoje no Café Camalehon // Rua Piauí 103, Higienópolis // todas as quintas de julho às 22h // R$10,00



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